quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Onde está Zé?

       Com imensa ansiedade e expectativa fomos em direção ao Rio fazer nossas apresentações, o circo pan-anarco erótico de Loba-poeta e Capeta-angélico iria se maravilhar pela primeira vez na terra de São Sebastião.

       Dois dias antes da saída converso com alguém que me diz: Vocês vão com a Van. Pensei se tratar de uma "piruá van"; mas não era nada disso se tratava da Vanessa mestra doidivana de ayuscar que nos levaria no seu carro.
       No caminho depois de duas horas de auto estrada onde tentamos eu e Van lembrar donde nos conhecíamos. Um relato-deboche dela sobre sua fuga de um ex namorado psicopata propiciada por um porteiro amigo drogado, levou-me a recordação do lugar que havia conhecido a moça. Nos braços matrimoniais de um grande amigo, artista subversivamente mais louco do que o psicopata de quem ela fugia.
       Esse reconhecimento nos elevou a condição de parentes na hora começamos a relembrar pessoas queridas que amamos, muitos risos e escracho, sobrevivemos a quase 7 horas de viagem bastante  incólumes.
       Na maravilhosa cidade, quando chegamos ao QG onde seriam as apresentações e base de nossa hospedagem, era possível observar uma associação de feras digna do mais emblemático mangá. Uma assembleia de monstros que deixaria Godzila e vários outros do Japão com mais inveja do que todas devotadas a Xuxa e Fallabela ("os loiros mais generosos do Brasil").
       Embora a junção de tanta gente louca num único espaço se propensa mais a desentendimentos abissais; do que harmonias xiitas. O quadro foi positivo, salvo alguns males menores, conseguimos um convívio pacífico pontuado por regozijos e alegrias antropofágicas.
       Os dois "shows" aconteceram com beleza e leveza (dado suas devidas distâncias) de um balé quebra nozes de natal. Tudo transcorria bem e alegremente nenhum espancamento, nenhuma fratura exposta, intoxicação ou surto psicótico tudo seguia um curso harmonioso como a apresentação do Robertão no natal da globo. Fechamos os trabalhos no amanhecer de domingo por volta     das 6. 
       Voltaríamos pra casa domingo a noite, resolvemos então tomar um banho de mar na tarde domingueira pra na sequência estradarmo-nos. Harmoniosa e sorridentemente como num conto de fada; Mas como o Deus do destino prega peças nas pessoas como um exú brincalhão, nossa história tomou um rumo inusitado.
       Zé Dú (o compadre de Ogum) o doidão amigo que acompanha e inspira, com suas doses constantes de cachaças xam(n)ânicas que abrilhantam e inspiram o casal agregador (Loba-poeta e Capeta-angélico). No hora do nosso  derradeiro banho de mar. Lembra-se que não gosta de mar nem tampouco de areia e vai em direção ao mercado buscar cigarros e água para  nosso grupo. Sem que ele ou qualquer um de nós se importasse com o fato desta pessoa já ter engerido quase 3 litros de cachaça nos últimos 2 dias. Até que o inesperado nos açoita como rainha dominadora de festa sadomasoquista, depois de uma hora e meia ele não volta e começamos a nos desesperar.
       Saímos diligentes nas três direções (não nas quatro pela inexistência zona leste no Rio onde fica o mar e sendo o mar coisa que Zé Dú não gosta) infurtiva e frustradamente retornamos pro nosso ponto de encontro (banquinho do lado da areia) sem encontra-lo. Somos então nesse momento obrigados a pedir ajuda da polícia que com toda má vontade da face da terra nos diz que só depois de seis horas começariam a procurar. Nossos planos haviam naufragado no leme não íamos mais conseguir viajar de volta naquele domingo e oxalá que nada de pior houvesse acontecido com nosso amigo.
       Após cansativas incursões para os três pontos cardias terrenos cariocas descançamos para pensar qual  próximo passo dar. Foi então que a carioca nossa anfitriã apareceu com um barraqueiro de areia&morador de rua (que eu carinhosamente chamo de Mavã). Que se prôpos a procurar o Zé Dú desde que um de nós fosse com ele. 
       O clima ficou tenso, a insegurança grande então olhei pro casal aglutinador meus grandes irmãos e disse : Eu vou.
        Começou então minha jornada as calçadas do Leme a procura de Zé. Já no primeiro quarteirão andando com Valdemir (era esse seu nome) percebi que ele estava com uma faca na cintura. Não havia mais a possibilidade d'eu voltar pra trás, teria que controlar meu medo e continuar o rolê com ele. Perguntei de onde ele era? 
Maranhão ele disse.
Cantei um cacuriâ de dona Tete.
Ele não se interessou.
Pensei é agora que eu vou levar uma facada por causa de vinte reais, que era a grana que tinha no bolso da bermuda.
Ele primeiramente me levou numa pequena escadaria de uma também pequena igreja onde vários maloqueiros (como ele próprio disse) comiam e dormiam nesse momento acreditei que o pior aconteceria-me. Mas quando se olha nos olhos das pessoas parece que se recupera um sentido humano entre você e o mais flagelado dos pais de rua. Conversei com a moça negra desdentada que reclamou da comida apimentada que dividia com seu marido, rimos.O maranhense disse que eu era baiano. Comecei a perder o medo; embora sua faca insistisse em escorregar e a todo momento cair da sua cintura. 
       Valdemir queria dizer- me algo com seus gestos, tirou um maço de dinheiro do seu bolso entrou num bar a um quarteirão daquela escadaria de proscritos comprou um maço de cigarros, deu um cigarro parum outro mavã que nos seguia alguns segundos pedindo pra fumar. Entrou em outro bar comprou café queria me pagar um também se indignou com minha recusa. Apresentava-me a todos moradores de rua que ia encontrando, dizia com orgulho que eu estava seguro na sua companhia que nada me aconteceria e que encontraríamos meu amigo. Mostrou sua vida, suas posses cumprimentava até mesmo aqueles que lhe ignoravam , conversou com porteiros, donos de bar, balconistas, crianças, velhos e com todos os mavãs que cruzaram nossa frente. 
       Novamente parou pra comprar. Desta vez um latão de cerveja, queria que eu aceitasse uma; novamente não entendeu minha recusa e fomos nos distanciando do ponto inicial até que na ponta da praia paramos pra conversar com os lixeiros com seus uniformes laranja e sua transparência, tratavam Valdemir com intimidade, aliás todo mundo que ele fez questão de me mostrar, chamavam-lhe de: Tartaruga. Tentei chamá-lo assim, mas ele corrigiu-me: Valdemir!
        Mantinha algo solene entre nós mostrava-me suas conquistas na cidade maravilhosa era conhecido e a sua maneira respeitado por tantos. Não cansava de dizer que iria encontrar meu amigo. dessa forma eu escutava todo seu falatório enquanto a gente andava, tinha acabado de anoitecer porém ele por três vezes me disse que o dia estava pra nascer. Eu me perguntava qual a diferença destes dois pontos de vista?
       Zé Dú dentro  de sua euforia etílica e nostalgia no caminho do mercado lembrou de sua tia Letícia que mora ali perto há muitos anos. Nos abandonou sem aviso de partida foi procurar essa tia que desde a adolescência não via. Seu celular e sua bagagem estava conosco resgataria tudo depois quando a gente se encontrasse em São Paulo. Ele também precisava a sua maneira ser afagado de um passado que não tão distante lhe enterneceria aliviando uma certa asfixia de andar desconhecido; sabendo que ali tão perto havia alguém que faria toda diferença no afeto que lhe reservava.
       Um de nós que precisava voltar antes da segunda encontrando Zé Dú na rodoviária que logo em seguida foi por nós resgatado, como estava sem identidade tinha ido até uma delegacia próxima pedir uma autorização de alguma "autoridade" para embarcar em condições excepcionais; mas como o delegado fez uma autorização em papel comum e de punho o vendedor de passagens não aceitou e daí surgiu o tempo para que Léo o encontrasse no guichê da empresa.
    Nenhum dos mavãs perguntou se o Zé que eu procurava era o Pelintra.
        Tanto Zé na sua jornada interior em ruas desconhecidas. Como Valdemir na sua jornada interior nas ruas do bairro onde todos os conhece não encontraram o que perderam.Sequer cruzaram-se em alguma esquina. Eu por minha vez fiz grande trajeto com Van e percorri caminhos tão curtos e significativos entre mavãs.          
Pedrão Guimarães

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Destinos

Resignação! Mais que impotência e ainda pior que comiseração. Seria. (penso) Aquilo tudo que gostaria de ter tido e que mesmo não possuído conforto-me não mais como derrota. Mas como uma especie de remédio as avessas que acalme meus destemperos, vontades inconfessas, lamentos por beijos roubados não consentidos.
Lembrança ancestral asfixiante de que a vida sempre pode ser pior, é como olhar nos olhos do presente chorando o passado e implorando generosidades de acasos futuros. Por mais que se mude e transforme surpresas "aum" devir. Nisso reside meu pânico e reconhecimento das fragilidades que de tão peraltas brincam com a vida da gente, nos ensinando a ponderar nossas arrogâncias rumo ao fim de si,do que está perto longe. De tudo.  

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Nativo-idade

Nos encontramos naquele vagão de metrô era natal.
Ela tinha uma euforia de quem bebia a uma ou duas noites, e sem dormir sem sonhar.
Sua alegria era um torpor de quem convive com tantos dessabores.

Falava-me sobre a prisão da Nalva e ria, um riso alto forte. Coisa que incomodava as pessoas ao nosso redor. Sentia-se justiçada vingada por um Deus assim justiceiro (tipo juiz Sérgio Moro de Curitiba) que foi capaz de castigar aquela que tantas vezes se recusou a lhe servir o último trago de bebida. Que tanto lhe esculhambou, muitas vezes lhe expulsando donde convive com tantos outros, fugindo da só convivência de si mesma. 
As vezes compartilhar a companhia só com você pode ser mais aterrador que a própria de ideia do infortúnio mais sofrido.
 Sei o que isso significa!
Mesmo tripudiando a má sorte da Nalva. Ria da sua própria tristeza de conviver com tantos e continuar só como se isso fosse uma especie de montanha intransponível.
As pessoas ao redor se incomodavam mais não falavam nada, preocupavam-se com seus presentes, ceias, percursos,pouca grana, abraços culpas e desculpas natalinas. Por que essas épocas expõem tanto nossas mais intimas tristezas?
 De onde vem o castigo da vida?
Ela então descontrolada contou que trocara a luxuosa casa da irmã na estrada do horto pra acampar nesse natal com sua namorada numa esquecida e abandonada estação de trem no começo da serra do mar.
Cada vez mais alto queixava-se de maus tratos reservados a sua pessoa por outras que de tão arrogantes, esqueceram de tempos inglórios que passaram em hospícios e casas de repouso onde ao invés de se descansar a alma só se acumulam lembranças e ressentimentos. Que nessas épocas de festas precisam ser expurgados aos goles do álcool, com o cheiro da droga e o esfuziante delírio de se viver pra sempre sobre o efeito de alguma substância que faça da vida uma alegria tão grandiosa que não se tenha mais vontade de se libertar dela. Tornando tudo a nossa volta um balsamo de colorido alucinógeno.  
Pedro Guimarães.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Machaiada

Vejo homens regozijando-se entre os iguais sobre as diferenças que os tornam, formam e os armam homens.

Não sei por que amam-se tanto. Talvez admiração, receio ou competição peniana. Quem sabe?
Com as mulheres gozam e as amam desde que não falem muito. Pois como já disse a poeta a língua é o pinto da mulher. 
Quer casar comigo?
150 reais é o valor do que te reservo.
Você é uma mina agradável o seu valor então é 170 e não se fala mais nisso.
Me pergunto sobre o casamento entre um casal que se prostitui? Outro dia no supermercado observei. Eles  com um carrinho lotado de itens: grãos, secos, molhados, embutidos, laticínios, gasosos, sólidos e liquídos galactósos. Desfilava esse casal, por entre as prateleiras e gôndulas superlotando cada vez mais seu carrinho de compras despreocupados do pavor ou sentimento de crise. Afirmado o tempo todo pela globo, pela direita,por nossas dificuldades, pelos incautos facínoras pela Lilian white fibe.
Por onde passam arrancam olhares, ninguém diz nada; mas percebem.
 Ela exibe suas ancas firmes e rijas, tem a pele bronzeada pelos descoloridos usa malha de academia de ginástica com peitos tão salientes e altivos como d' uma travesti. E olhos, que talvez sejam lentes, de um azul mais celestial que o da música do Djavan e farta cabeleira loira.
Ele por sua vez ostenta um abdomém e braços musculosos com tatuagens que sugerem fogosidade e virilidade pornográficas. Compram os artigos mais caros.
Começo discretamente a segui-los pra ouvir seu enredo. Comentam da ida à Riviera de São Lourenço com um cliente dela. Ele  fala de seus atendimentos  europeus na Espanha na época das vacas gordas europeias, riem-se. Percebem que os espiono e começam a falar mais alto para exibirem sua superioridade. Eu então saio fora desse jogo pois já havia ouvido o que me interessava. Porém antes de tirar o meu time de campo ouço a última informação que me estarrece. Ela revela que num "programa-suruba" que faria com uma amiga e dois caras, se recusou a prosseguir pois um dos participes seria um garoto de programa que trabalhava com ele seu márido. E que isso poderia gerar fofocas, boatos e difamações no "meio".
Fui embora pensando que moral e ética é aquela?
Nós que nos consideramos honestos e recatados nunca imaginamos o quanto essas pessoas estão carregadas da mesma moral que nos orienta, por mais que desviem do nosso comportamento; são capazes em situações extremas de nos superarem em escrúpulo e moralidade.
Repito aqui então o chavão mais batido: Todo macho esconde dentro de si uma bicha faminta ( exame da próstata é temido por fantasia que o médico com o dedo o maltrate tanto quanto já maltratou outrem com seu pau) e toda puta quando se encontra encurralada liberta de seu interior o que tem de mais santa (Bom exame de próstata para toda machaiada).    Pedrão Guimarães

sábado, 1 de agosto de 2015

REGINA RAINHA

Regina você é bandida!

De vida cachorra atrevida.
Espivetada menina com força e energia.
Com fome/ loba, dragão de rapina.
Intensa e obscura em desejos
 dos melhores amores e mordidas.
Regina doidinha contida.
Coroa em ave distinta .
Rezando  controles fogueteiros.
Sonhando coisas antigas.
Regina louca absoluta.
Querendo e batendo nas tipas.
Vive em condominio e se resigna.
Com a flor que explode, Regina.
Sua vontade é de estapear mais da metade das vizinhas(As tipas).
Seu controle vem de filhos e marido, Regina!
O entendimento vem de um trabalho duro.
Trabalhamos todos, com nossas duras realidades.


Que as vontades de espancar o mundo. Não reginem -nos Regina!
Exercita muito amor. Regina!
Não tem ódio dos estrangeiros. Tenta imaginar!

As vezes curiosa pensa-se batendo nas tipas, daqui e de lá.
Mantém um amor por quem vive aqui perto.
Sabe onde o márido está e o que faz!
O final do dia e da semana é seu.
Provoca tudo que domina Regina.
Regina é bandida da vida cachorra atrevida
Carinha marota ,titia, garota cunhada que explicíta o dia que levitou  e pôs no cabelo uma fita.
Regina segurei sua gana de bater nas tipas.
Gosto da sua vontade incisiva e menos descontida de rompantes.

Regina menina restrita concisa. 
Rio-me quando faz-se Regina. Clamando-me: Vamos bater nessa tipa?
Pedrão Guimarães



quinta-feira, 2 de julho de 2015

Gal-Bethania (Lucichana)

Ouvi então hoje que a Gal costa está rouca sem pescoço com os ombros encontrando com suas orelhas(Carona). Que sua beleza e voz foram embora. Como se isso desabonasse seu talento e existência enquanto Diva.

 Falavam também da "feiura" de Maria Bethânia que hoje não pinta o cabelo. 
O quanto isso possa ser e é desleixo e descuido. Suspiro em uma tristeza profunda e perturbadora. Não consigo falar nada perante a decrepitude destas pessoas que fazem tais comentários. A própria e avassaladora degradação que os assombra tão presente neles mesmos. 
Pontuada por uma rotina burocrática, sofrida, invisível sem amparo ou socorro de alguma entidade amorosa que os acolha.
 Mesmo que o amor esteja dentro de um ofício necessário pra coisas tão simples e  incontestavelmente vazias, que os montes olimpos não nos restituam mantendo nossa beleza jovial. Sem mais amor do que possamos ter.
Horror maior talvez seja a  impressão da compreensão dos sensores que a vida nos propicia e depois nos nega. Como um remédio que só nos foi dado por algum tempo.
 Manipulado por um doutor perverso e sequestrador como os homo-amores de Mário de Andrade. Não consigo dizer ou viver essa declaração: Eu sei que vou te amar, por toda minha vida!
Amarei todas as pessoas por toda a minha vida e por isso sou um idiota.
 Mas ressoo  minha idiotice gostosa que talvez me eleve à um sentimento que redima meus males e dores.
Gal costa prometeu sua beleza e voz eternamente cristalina? Nos traiu a partir de sua condição humana?
  Bethânia manteve sua voz e  condição de mais "feia"  que a Nara Leão e a Elis Regina? 
Era um concurso de beleza que as motivou nos fazer e sentir tantas coisas?
São as mulheres mais lindas que motivam e estancam sentimentos das dores que me assombram.
 "Anjas" que acalantam minha demonice onde encanto-canto, vivo e sobrevivo. Pois viver é muito mais difícil que existir.          

Licença poética:


-Luci, ama, clama,trama e chama-se. Luciana.
Clama um amor que quis muito.
Embora tanto quisesse não foi pra cama.
Luziu uma chama flamejante.
Com tanto desejo.
..."A seda azul do papel que envolve a maçã da"...(Caetano veloso)
Laurentiou sua fama.
Esperou o momento de amar.
Deu o bote.
Resignou-se; sem nunca ter temido também expor-se.
Constituiu o céu que aportou.
Soube retrair-se na hora certa.
Mordeu aquele grelo como se fosse o seu próprio.
Invocou sua submersão das lamas.
Não menos interessante.
Fez coisas insignificantes.
Persistiu no dia de ter sua posse.
Destruiu o platônico.
Do monstro a diva.
Inverteu seu número.
Ama mais que todas.
Poderia até ter se tornado puta pra realizar seu sonho.
Bethânia, Gal e Caetano ouvia com força.
Tudo é no que queria.
Carinho. Sempre amei tua valentia.
Riu-se do mundo depois desse feito auto-transformador.Hoje é Lucichana.

Pedrão Guimarães.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Sonhos de magistério ( Do Trilogia Biscate)


Sonhos do magistério.(Trilogia biscate)

Sábado, véspera de páscoa, a professora Geni encontra-se em sua kit na rua Nestor Pestana, suspira num misto de tédio e solidão, vai até a janela do vigésimo andar do prédio onde mora e observa na rua uma profusão de passantes, automóveis, prostitutas
luminosos de bares e casas noturnas.
 Quase meia noite,  ela não saiu nem tampouco tem sono, vai até a geladeira e toma um copo de leite, quando o telefone toca ela o atende com prontidão, mas antes que pudesse falar algo mais que a saudação inicial, ouve uma voz máscula, grave e ameaçadora que diz: Seu Titanic vai afundar, piranhazinha (desligando).
 Geni por um momento fica aturdida , pensando.Quem poderia ter feito uma brincadeira  de mau gosto daquela comigo, justo ela que encontra-se  tão absorvida com seus afazeres de professora que mal estava tendo tempo  para o convívio social.
 Liga a TV,  ri-se assistindo uma comédia italiana antiga, isso já são quase três horas da manhã quando o telefone toca novamente, ela o atende em quase descontrole : Alô alô...
0uve aquela voz novamente:Vassoura é pra se varrer a casa  não para sair voando (desligando). Neste momento a professora sente-se vítima de algum tipo de conspiração masculina,  frágil e ameaçada, pensa consigo mesma .
Quem seria capaz de estar fazendo isso comigo?
 Sou uma pessoa de princípios aristotélicos e humanistas elevados , não mereço esse tipo de terrorismo, se ainda estivesse envolvida em alguma maluca história de amor ? Há quase um ano  não vou pra cama com homem algum! Aumenta o volume da televisão e dorme na frente do aparelho numa tentativa de sentir-se acompanhada e segura, mas no entanto é acometida de um pesadelo onde ela se encontra vagando dentro de um labirinto insuportavelmente branco ouvindo vozes, gemidos, risos e passando por rostos nunca antes vistos, por volta de cinco horas da manhã o telefone toca novamente, Geni sobressaltada atende ao telefone e na sua ira, diz antes de ouvir qualquer insulto.
- Escuta seu cretino, eu tenho irmãos que vão quebrar sua cara e te colocar no seu devido lugar, guarde seus gracejos para sua mãe...
E a mãe dela então responde do outro lado:
 Geni sou eu sua mãe, algum problema minha filha?
Geni: Não é nada não mãe eu só estava tendo um pesadelo. 
Mãe: Pesadelo na noite do sábado de aleluia para o domingo de páscoa, isso não nada bom, é falta de religião, vocês estudam e se afastam da religião!
 Geni: Mãe, a senhora me ligou aqui cinco horas da manhã para me dar sermão!
 Mãe : Não é nada disso. Eu e seu pai levantamos aqui no sítio para matar uns frangos e um leitão para o assado do almoço de páscoa, seus primos e suas tias virão, quero confirmar se você vem ou não?
Geni: Não mãe! Tenho uma pilha de umas quinhentas provas para corrigir, na segunda eu ligo para saber como estão todos e como foi tudo aí, agora preciso dormir um pouco. Tchau mãe (desliga o telefone).
 Aquela ligação de sua mãe serviu como uma espécie de acalanto, que faz com que ela tivesse algumas poucas horas de sono tranqüilo, parecia, que a inconveniente ligação da mãe havia tido um resultado inverso, era como se a mãe neste momento fizesse a função de uma santidade protetora que aliviou a moça por alguns instantes do espectro infernal, pela qual esta passava.
           Até as nove e meia da manhã tivera um sono de anjo dormira com uma tranqüilidade serena que há muito não conhecia, parecia que tudo que havia passado nas horas anteriores não passava de um pesadelo distante, até que então o telefone volta a tocar, ela já com seu espírito desarmado, volta a atende-lo:
“ Alô “?
E aquela voz infame novamente entra na sua vida.
“Toda puta acorda linda. Descabelada e com mau hálito“. Desligando.
Ela: Alô alô alô...
           Novamente tem início seu martírio, senta na cama e chora, retoma sua integridade e diz para si mesma: Se esse filho de puta rampeira, acha que vai me destruir, ele está muito enganado, justo eu uma pessoa arraigada de princípios aristotélicos e humanistas, mas não vai mesmo.
         Levanta faz sua toalete, e começa a corrigir suas provas, e faz isso com a determinação e firmeza de um soldado alemão da segunda grande guerra. As horas passam, já são treze horas daquele terrível domingo, e ela sentada na mesma posição há mais de quatro horas, corrigindo suas provas. 
          Aí então toca o interfone, Geni quase cai da cadeira, ao atender descobre ser um amigo seu , uma espécie de confidente, companheiro de noitadas e baladinhas gostosas. Fica aliviada e pede que este suba. A presença de um homem do tipo forte e mundano era tudo que ela precisava neste momento. Abre a porta para seu amigo Léo.
 Geni: Que bom que você apareceu estava a ponto de enlouquecer.
Léo: O que foi? Tá tão abatida , saiu ontem pra noitada?
 Geni: Noitada, coisa alguma, não dormi a noite toda.
 Léo: Já sei, ficou a noite inteira namorando? Conseguiu o cara lá... 
Geni: Escuta Léo estou sendo ameaçada por um cara que me ligou a noite toda me falando coisas horríveis.
 Léo Mesmo?!? Quem será algum ex-namoradinho, ou algum futuro amante?
Geni: Não brinca Léo a coisa é seria, não faço a mínima ideia ,estou tão amedrontada. Léo então se propôs a ficar com Geni todo resto do dia, abriu a janela, colocou uma música e conversou bastante com a amiga, coisa que a acalmou bastante  ficaram os dois fazendo um jogo de associações e deduções, com o objetivo de descobrirem quem pudesse ser o canalha que torturava a professora.
          Lá pelas três da tarde Léo fez um chá de camomila para a moça, esta entrou no banho de onde saiu só com um roupãozinho, Léo arrumou as almofadas na salinha de  kit, obrigando a moça a tomar o chá quente, que em poucos minutos surtiu efeito fazendo com que a jovem adormecesse lânguida e libidinosamente entre o roupão e as almofadas, sentia-se em estado de graça.
           Neste momento Geni, sonha que está indo para escola onde trabalha, carrega uma pasta em uma das mãos com as provas corrigidas dos alunos, e em outra das mãos um grosso livro do Sérgio Buarque de Hollanda, sobe a rua da consolação à procura do ponto de ônibus mais próximo, tem no rosto a expressão de seriedade e introspecção de mulheres eruditas e, no corpo uma rígida postura de um bom condicionamento físico, de repente nota buzinas, assovios, derrapagens de carros, palavrões e um grupo de homens correndo em sua direção, quando então percebe no sonho estar completamente nua em plena rua da consolação em alta luz do dia provida somente de seus livros e papeis/materiais de trabalho, desespera-se e tenta argumentar esbravejando:
          Me respeitem sou uma intelectual, no momento em que a turba masculina, chega de encontro a moça esta acorda, gritando em sua sala envolta no roupão e sobre suas almofadas, molhada de suor num misto de estupefação e deleite.
Léo: Tudo bem Geni? Você me assustou!
Geni: Foi só um sonho me traz um copo de água.
        O telefone toca novamente, os dois se olham assustados, Léo então diz para Geni que atenda e tente prolongar a conversa, ela embriagada com o sonho que acabara de ter, pega o telefone.
 Geni: Alô!
 Voz ao telefone: (cantarola)Parece que eu sabia que hoje era o dia de tudo terminar...
Geni :(continuando) Pois logo notei quando telefonei pelo seu jeito de falar... Eu já sei quem é você e se insistir em continuar, vou à policia (batendo o telefone na cara do facínora).
Léo: Conta Geni o que está acontecendo?
Geni: É o Tato!
Léo: Casinho seu!
Geni: Bicha!
Léo:Amiga ou inimiga?
Geni: Inimiga agora.
Léo: Não estou entendendo nada, explica melhor.
Geni: Há uns dois anos atrás estava eu e uns amigos do interior, tomando banho pelados numa cachoeira lá do paranapanema, sabe assim gente livre e feliz?
Léo:Sei!
Geni: Foi aí então que conheci os dois, Tato e Tito, nadaram com a gente, eram namorados, depois passaram a vir para São Paulo, e eu os hospedava aqui na minha casa, nos tornamos grandes amigos. Às vezes até viajava deixando meu apartamento para eles poderem transar mais à vontade.
Léo: Gostoso assim! Isso  que é santidade, você é quem merecia canonização.
Geni: Não brinca Léo, é coisa séria, depois que o Tito resolveu acabar o namoro, o Tato enlouqueceu, achando que eu estava transando com o Tito, até fez umas ameaças mas desapareceu, eu o reconheci agora, por que sempre que a gente bebia cantávamos essa música.
Léo: E você  chegou a comer o marido da bicha ?
Geni: Nada eles não deixavam nem eu chegar perto, e se fosse pra comer alguém ali, teria sido a bicha , que eu achava bem mais interessante (Risos).
Léo: Pois é! A vida e as peças que ela nos prega.

Pedrão Guimarães