quarta-feira, 27 de abril de 2011

ESCOLAS E CEMITÉRIOS

 
 
Como não falar sobre o massacre em realengo? Um infeliz com tendências delirante- psicopáticas entra atirando dentro de uma escola municipal, doze mortos quase todas meninas. Wellington era este seu nome (também da capital da Nova Zelândia) até onde entendi mais um entre tantos brasileiros com um desejo imenso e equívoco protestante de ser norte americano, tanto que, pois em prática a atitude mais abjecta que um norte americano pode fazer com seus semelhantes.
O ministro da educação, em visita a referida escola afirma que a escola aberta, aos pais, alunos, ex-alunos e vizinhança é a condição maior de segurança para a comunidade. Concordo em grau, género e número. O que me assusta é uma sociedade (a nossa) que se gaba de manter o maior número possível de pessoas dentro das escolas sem que essas sejam capazes de transformar suas vidas, ou mesmo elevá-las a condição de cidadãos. No nosso país hoje, as pessoas se orgulham de poder manter seus filhos em escolas particulares isso mostra que perdemos a preocupação com a população como um todo; e o abismo distanciador, entre os que podem e os que não podem pagar, vai gerar cada vez mais miséria e violência.
 Dentro de nossas escolas perdemos a disputa na desleal concorrência entre professores, acuados, desestimulados e equivocados com gostosonas e bonitões, das televisões, que são hoje as grandes referências de heróis para nossas crianças e adolescentes.
O jovem se espelha e almeja a vida fácil dos endinheirados craques grosseiros espancadores de mulheres, clientes de travestis e, das modelo-apresentadoras-bailarinas, que não estudaram e nem sequer citam a escola como caminho para alcançarem as capas das revistas masculinas. Rodeados de luxo e ostentação diferentemente da rotina de professores, desvalorizados , adoecidos e com uma grande sensação de falta de perspectiva de mudança ou melhoria no cenário que os circundam, uma falência geral e generalizada .
Faliu: o estado, a família, as religiões, utopias políticas e principalmente a educação. Talvez fosse o caso começar do nada buscando outros padrões de sociedade e conduta. Muitos dos nossos governantes e poderosos foram filhos de professores, e isso parece não ter significado nada.
Acredito que um estilo novo de heróis urge surgir. Como aquela mulher de Ferraz de Vasconcelos, que indignada com a execução de um jovem ladrão na sua frente liga para o 190, e em tempo real diz não ser obrigada assistir tanta violência, no momento em que rezava no túmulo do seu pai, bate boca com um dos policiais assassinos e, exige que não deva ser morta por isso, naquele momento de nobre impulso, teve sua vida preservada (até quando?).
 Qualquer professor (a) poderia ter tido aquela coragem, dada o constrangimento e indignação no qual somos constantemente exposto e; também pelo aprendizado de convívio com o inusitado e imponderável constante em nossas rotinas (logo após a tragédia do Rio descobrimos que a mulher de Ferraz de Vasconcelos é professora).
Dessa forma então como cidadão e fiel das coisas nobres venho por meio deste documento clamar:
 Chega das explosões do cinema de ação, de noticiários sensacionalistas que tratam a desgraça alheia como espetáculo, da falta de respeito e de delicadeza generalizadas pelo individualismo, continuo alimentando meu “ódio” somente contra os maus-tratos.
 Pedro Guimarães

segunda-feira, 28 de março de 2011

O mal da vaca louca (O nanã de taninha).

Já havia algum tempo que me encontrava preocupado com Taninha, por onde andaria? Nunca havíamos ficado tanto tempo sem nos falar, nestes quase l6 anos que nos conhecemos. Sempre fomos muito presentes um na vida do outro. Fiquei mais tranqüilo quando encontrei a Rosana na rua.
A Rosana,agora anda com uma carteirinha do psiquiatra, isto faz que ela não precise pagar condução e nem tenha que enfrentar filas. Fiquei feliz por ela, lembro dela em umas ondas de muita loucura, loucura patológica mesmo!
 Rosana então me deu a notícia. Taninha voltou a morar com a família no interior, só não conseguiu explicar se foi por excesso de piração ou por falta de trabalho, mas no papo rápido que eu ela tivemos uma coisa me fez rir muito, imaginem que a família da Taninha arrumou um noivo pra ela lá da cidade deles. Cheguei até a chorar de rir.
 O que estas famílias não fazem para tentar tapar o sol com a peneira? Imagina Taninha noiva? Eu hem?!? Não vou nem telefonar. O chato é que sinto sua falta, conheci poucas como ela.
A gente se conheceu em uma festa de uns filósofos, uma casa legal. Com muitas idéias transgressoras, música alta, bebida barata, banhos coletivos, tesão no ar, parecia que nos conhecíamos todos desde a mais tenra infância, buscando liberdades absolutas. Mil gentes.
Taninha e eu começamos a conversar intimidades tão profundas que o passo seguinte foi dançarmos certa música de uma outra banda de vanguarda, onde nos jogamos e rolamos um sobre o outro no chão simulando um sexo faminto e espiritual, a festa toda nos aplaudiu e pediu, mais. Não poderia começar de outro jeito uma amizade tão gostosa.
Eu acompanhei os anos de sua vida e fui testemunha do tanto que ela foi se transformando numa mulher libertária e sensível.
Sim, pois naquela época, ela ainda tinha muito forte o balé e as aulas de piano no corpo, uma postura assim de menina burguesa com todas as vicissitudes para se casar com um tipo engenheiro ou coisa parecida ,assegurando-lhe uma prole saudável e dominante.
 Mas algo a perturbava, eu percebia isso, queria mais para ela, e para o mundo. Ficamos algumas semanas sem nos ver, depois de tudo aquilo e quando nos vimos pela Segunda vez, ela feliz e afoita foi logo me contando do quanto estava absorvida com as lembranças da sua primeira transa.
Com treze anos, numa praia do litoral paulista.
 E que o cara tinha tido um “casinho” com o Cazuza na época, ela sequer tinha noção de quem era o Cazuza. Mas estar com um cara que transasse com mulher e com homem tranqüila e abertamente era algo que a excitava mais do que o próprio fato de estar perdendo a virgindade.
Admitia que ainda sofresse um pouco, com as deformações nos pés causadas pelas aulas de balé clássico, sua professora era Russa e exigia até a última gota de sangue das alunas, sentia-se feliz em dançar. Mais sabia que algo teria que mudar, que a dança na sua vida não poderia ser, somente aquele recreio de campo de concentração.
Ainda tomava remédios, quando nos conhecemos e pela primeira vez havia ido morar em outra cidade, o noivo não aceitou o relacionamento a distancia, e rompeu tudo. Isso a fazia sofrer, e os comprimidos davam-lhe um conforto que a maconha e a cocaína nunca conseguiram; aliás, ela nunca suportou nem maconha nem cocaína adorava os farmacológicos, dizia serem mais “gostosinhos” e que, haveria de chegar o dia em que todas as pessoas do mundo só usariam estes, não precisando mais existir nem traficante nem policial.
 E sonhava com este dia mais do que com qualquer vitória do Brasil em uma copa do mundo.
Eu particularmente nunca me agradei com remédios, mas sou obrigado admitir que eles a deixavam tão suave, que não tinha coragem de repreendê-la. E aquele seu estado de rir e chorar ao mesmo tempo de quando começamos a andar juntos, estava se tornando coisa do passado.
Havia também outra coisa que me divertia e me intrigava em nossa amizade: era como as pessoas quando nos conheciam entregavam-se a contar-nos coisas de sua intimidade mais profundas, o que às vezes nos assustava. Pois nunca sabíamos se era por simples inspiração de confiança ou; se por algum tipo de tara que a gente despertava nos outros.
E o tempo assim foi nos tornando cada vez mais amigos, ela em pouco tempo parou de tomar os remédios e passou a beber, já admitia que a música do suldeste asiática lhe fazia melhor do que a missa dos domingos. Começou a namorar um estudante de engenharia, um músico de orquestra sinfônica, um jogador de futebol mirim, um artista plástico que fazia suas obras com insetos embebidos no querosene e um professor de filosofia.
Numa destas noites onde nos encontramos para beber e conversar, ela pediu minha opinião muito importante (para ela), sobre uma grande dúvida. Sentia a necessidade de melhor conhecer a condição humana, nunca houvera transado com um trabalhador braçal, um negro ou um nordestino. E isso a fazia vazia e distante da realidade do país e do entendimento das coisas, e do sonho de poder um dia mudar o mundo para uma realidade mais justa e bonita. Indagando-me sobre o que eu pensava disso? Eu por minha vez lhe incentivei a buscar experiências e sentidos mais abrangentes e preenchedores para seus interiores dizendo-lhe: Não acredito em mulher, abastada e branca, que nunca foi ou que não tenha desejado ir pra cama com índio, nordestino, negro e japonês.
 Neste momento não tive a idéia da força do eco de minha fala em seus ouvidos, eu mesmo confesso que falava com certo deboche e demagogia, ela, no entanto quando chegou à sua casa jogou fora às sapatilhas.
 Ficamos por mais algumas semanas sem nos encontra, porém quando a revi, percebi que algo havia se rompido, ou começado em suas grutas interiores, o tempo todo indagava a mim e as outras pessoas sobre cultura indígena, negra, samurais, bois-bumbás e maracatus.
Um novo mundo havia para ela se descortinado e, um apetite voraz havia se apossado de seus lábios vaginais. Impulsionando esta moça a mascar toda sorte de tipos étnicos que o Brasil oferece, e contemplando uma felicidade seguida de uma placidez, após cada novo banquete, só possível de ser comparada a de um monge tibetano ou a um santo martirizado com aquela sensação de obrigação cumprida para com o humano e o divino.                                     
Passou a negar tudo aquilo que entendia como imposição européia. Nosso contato tornou-se cada vez mais estreito, pois eu de minha parte comungava com ela pensamentos e atitudes, vivíamos uma fase de interação de sentidos e mucosas com todos os seres do planeta desde que não fossem ou que não compactuassem com o pedantismo da hegemonia eurocêntrica, judaico-cristã.
 Taninha tornara-se surpreendentemente versátil, sempre que eu a encontrava apresentava-me alguém novo do seu eclético cardápio: Um japonês da yakuza, um negrão que falava alemão, morenos da capoeira, batuqueiros de maracatu, maranhenses tocadores de “onça”, um loiro pai de santo, um índio ator de uma reserva mato-grossense e, quando eu imaginava que ela já havia superado tudo, apresentou-me um casal de sapas gostosas com as quais ela somava brincadeirinhas.
Taninha então neste momento havia se tornado uma espécie de Dalai Lama, uma grande puta sagrada, que eu seria capaz até de brigar se visse alguém a destratando ou mesmo lhe censurando.
Mas como a vida só nos dá como fartura nas argrúrias, no auge deste momento que todos vivíamos, ela resolve se apaixonar por um rapazinho que só se vestia de preto, que se recusava a tomar sol, para afastar de uma vez por todas sua ascendência afro índia, cabeludo fanático por hard rock que, exercia total controle sobre minha amiga e ainda a torturava física e psicologicamente, um porco-espinho esquizofrênico.
Eu por minha vez afastei-me dela e de seu maridinho corvo, me devotando a continuar com a peregrinação de divulgar esta prática-rito exercício de liberdade que até hoje acredito.
Passados três anos recebo um telefonema (mensagem gravada) que não compreendi nem o significado e muito menos a procedência, mas após ouvir a gravação atento várias vezes percebi se tratar de Taninha, que me convidava para assistir um tal espetáculo de dança, no qual ela fazia uma personagem. Titubeie em ir assisti-la. Encontrava-me cético com as pessoas me pegava maldizendo a humanidade sozinho, e dizendo o quanto não valia mais a pena o esforço para gozar pecadinhos com as pessoas. Isso me assustou muito, e então numa tentativa de mostrar a mim mesmo que ainda haveria um pouco diversão na vida, resolvo ir assistir o espetáculo da minha grande amiga.
 No teatro me comovia com cada entrada de Taninha, ela fazia assim um personagem forte uma entidade antropomorfa meio vaca meio mulher, que na sua condição de mulher havia jurado nunca mais amar homem algum somente os bois, eu sentia tanta verdade no seu trabalho que chorei torrencialmente com a dor daquele personagem que ela fazia (embora me assuste a idéia de amar animal castrado).
 Ao término da apresentação eu precisava ver minha amiga fazer as pazes, saber a seu respeito. Enfim tinha fome de notícias e da presença de Taninha e isso levou-me a procurá-la. Quando nos revimos nos beijamos, nos xingamos e fomos logo tomar um banho juntos para que todos segredos-confidência fossem colocados na pauta do dia.
Neste momento então, me contou que a construção da personagem mulher de boi que eu havia a visto fazer, tinha sido resultado de toda uma pesquisa em terreiros de candomblé e viagens para os sertões do Brasil onde participou: de toadas, cirandas e ladainhas. Foi aí que eu quis saber se ela havia então se elevado à condição mulher vaca?
 E ela com entusiasmo corrigiu-me dizendo que mulher de boi e mulher vaca são coisas diferentes. Rimos, choramos e conversamos foi aí então que ela disse haver se separado do urubu torturador, pois ele a mantinha em condição de subjugação total, por ela ser mulher. E a traía com um amigo dela bailarino bem dotado de Santos. E quanto isso a feriu e a fez refletir sobre muitas coisas. E que a única boa herança do fim desta relação havia sido o “nanã” (pinto de plástico feito sob encomenda) que havia ficado com ela.
 E neste momento novamente preocupei-me com Taninha. Pois acabava de me contar que estava namorando um ator pornô, e que nunca um homem havia sido tão verdadeiro com ela, pois já o havia visto em filmes transando com outras mulheres, travestis e homens. E que sendo assim não teria nenhuma surpresa desagradável no futuro, já que as cartas estavam colocadas na mesa desde o inicio e que o sexo entre eles era muito bom, e ele não se opunha ao uso do nanã na relação; muito pelo contrario até gostava. Ou seja, nunca tinha tido “com homem” relação tão verdadeira.
Confesso que fiquei feliz por Taninha estar amando, mas me preocupou este namoro dela com um michezão. E novamente por algumas semanas como nos velhos tempos ficamos sem nos ver, porém, eu fui me angustiando, com a falta de notícias e resolvi visitá-la. Iria fazer às vezes de irmão e pôr este profissional do sexo para fora da casa dela, afinal de contas um cara assim pode ser um maníaco, assassino a gente nuca sabe.
Enchi-me de coragem e lá fui. Quando cheguei em sua casa para minha surpresa ela estava jogando baralho com o computador. Entrei esbravejando:
Eu-Cadê o vagabundo?
Ela- Quem?
Eu- O que está morando aqui com você. Oras!
Ela-Foi-se.
Eu- Você esta escondendo este canalha, já basta eu ter engolido aquele
Urubu torturador. Mas um garoto de programa eu não vou aceitar. Te interno em um hospício!
Ela- É sério mandei embora.
Eu- E não te levou nada? Está tudo bem com você Taninha?
Ela-Tudo?!? Tudo bem ,transar com outras mulheres, comigo transava bem. Tudo bem fazer filme pornô; comigo transava bem; tudo bem transar com travesti e com homem; comigo transava bem; Mais pedir o meu nanã emprestado. Não! Isso eu não aceito (começa a chorar e se joga em meus braços).

 Pedro Guimarães

terça-feira, 15 de março de 2011

Amor próprio

Tive tanto tesão em você e não consumei nada.
Sei lá se por incompetência minha; ou muita competência sua.
 Tive tanto tesão em você e nunca soube se sua distancia era desprezo ou dissimulação.
Tive tanto tesão em você e isso me agradou; essa espécie de incontato.
Mas no calor dos meus sonhos pude ter-te inteiramente livre e sem bloqueios .
 Tive tanto tesão em você e  me ressinto de sua esnobice barata.
 Seu corpo sempre foi meu, por mais  que me tenhas negado.
Tenho certezas e uma delas é que enlouquecerias com meus toques.
Tive tanto tesão por você que talvez nunca explique  a eu mesmo o pulsar desta razão.
 Tive tanto tesão por você que hoje me sinto consumido por um sentimento nostálgico, mas não me permito azedo e recalcado.
 Mesmo que o amor não exista.
 Que seja algo almejado somente por poetas e insanos, que toda a loucura seja perdoável.
 Que toda dor seja pura brincadeira de criança.
Mesmo que ainda tenha tesão por você e não saiba onde isso resida e esteja.
Tive muito tesão por você.
    Pedrão Guimarães  

quinta-feira, 10 de março de 2011

Banho de Luzes

Principalmente nessas épocas de carnaval, as pessoas torcem para que a gente contraia algum tipo  assim de doença sexual letal, ela me dizia. A gente se encontrou no bar da Celeste, ali perto da Augusta. Eu não a via há muito tempo, perguntei a ela se ainda trabalhava com prostituição? Ela sorriu e confirmou: Não sei fazer outra coisa, a gente vai se especializando com o passar do tempo, principalmente quando se faz o que gosta(rimos).
O mais interessante é que devido a cúmplicidade existente entre nós tratava-me também como se eu fosse alguém da categoria. Nossa você esta tão bem,(falava-me) o tempo não passou pra você, tem gente mais nova muito mais acabada. Tive que sumir minha vida estava correndo perigo, há quatro anos atrás sofri um acidente de carro que me impossibilitou trabalhar, foi socorrida pelas meninas ali da "toca do grilo", pra pagar o favor, fazia cabelo e unha de todas elas,  no final tava ganhando mais dinheiro delas do que com homem na rua. Mas você sabe né! Quando se mexe no cabelo e unha de mulher as bichas contam tudo e , então de uma hora pra outra eu estava sabendo de um esquema monstro do crime, que o marido de uma delas fazia parte  a mina me contou. E provavelmente contou pra mais alguém. O bando do marido da mina foi pego pela polícia antes mesmo do colocar em prática seus planos, percebi que poderia me dar mal sem ter cagüetado ninguém, então meu bem cai fora.
Vendi caipirinha nas praias de Santos,churrasquinho em Caraguá em São Sebastião cheguei até a "manguear" (esmolar), em jacareí fui costureira, até que fui parar em Aparecida onde conheci uma "mona de equê", amiga como poucas.
O viado era de Goiás, já tinha morado em fazenda, andado a cavalo, trabalhado na roça, macho pra caral.. , mais algo por dentro lhe dizia que tinha que buscar outra vida. Veio pra São Paulo morou em pensão, descobriu sua verdadeira vocação pra transar com homem e aprendeu o fino ofício de cabeleireiro, foi uma das primeiras pessoas a fazer com êxito a técnica de luzes na Xoxóta, que hoje junto com a depilação da mesma, ganhou o Brasil e o estrangeiro. Pois então veja você ,a bicha me ensinou a técnica, e hoje vivo sem precisar mais fazer programa,fazendo mexas loiras nos cabelos e nas xoxótas das pessoas.
Vou te dizer ainda tem gente boa nesse mundo, se não fosse a benevolência dessa bicha o que eu estaria fazendo hoje?
Um dia desses quebrei um galho pra ela, pois amiga é pra essas coisas. Uma tipa aí, encomendou o serviço, a bicha foi lá deu o maior capricho na pombinha da vaca e ela se recusou a pagar. Pra que a bicha não tivesse que bater na tipa,e se complicar com a lei, eu me ofereci pra dar uma "cossa" na fulana, dei tanto na cara dela. Pra aprender a não vir tirar  gente honesta!
Terminamos nossa conversa  eu minha reaparecida amiga. Não soube se havia tido um delírio, surto ou sonho. Daquela conversa me ficou a recordação de boas risadas e de quão louca ,se tornou a noção de troca e generosidade nos tempos atuais, e a certeza de que temos as melhores profissionais do mercado mundial em se tratando de depilação e luzes na xoxóta.                                      
                                                     Pedrão Guimarães

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O mar é mãe

Ao que tudo indica somos fruto de algum verme que saiu das águas do mar e se adaptou a terra.
Se há algum mistério metafísico, criatório e onipresente, talvez seja o fato de que o ser mais desprezível é o que mais detém poder sobre as outras espécies.
E aí me desculpe Darwin, não consigo ver  nisso lógica alguma de evolução das
"espécimes".
Do mar também vem a homenageada da semana Iemanjá, a grande mãe dos Orixás, que criou até filhos que não pariu.
Um amigo que frequenta a Bahia contou-me: Que alguns anos atrás estava na praia do Rio vermelho em Salvador, praia donde tradicionalmente se fazem as homenagens e oferendas para a Deusa no dia 2 de fevereiro (Não confundam com 3 de fevereiro). Havendo duas rodas de batuque, numa, um samba desprovido de conotação afro-religiosa, e outra totalmente engajada no catimbó e no malacuchê, mais profundo que você possa imaginar.
Com um detalhe perigoso as duas rodas de batuque muito próximas dificultando aos mais desatentos diferencia-las. Eis então que chega uma moça feliz e cheia de "boas intenções" e começa a sambar loucamente enquanto os barcos se dirigem em direção ao mar aberto para despejar oferendas para Iemanjá. Os dois batuques parecem se tornar uma coisa só, esta moça feliz samba com alegria e inocência, daqui a pouco a moça é tomada por uma convulsão epifânica, se contorce, baba cai ao chão é socorrida por "feiticeiros" que ali estavam. Mas um comentário não pode deixar ser feito, alguém falou em alto e bom tom: Bem feito. Quem mandou pegar a batucada errada!
Engraçado e cruel como a própria relação que temos com o mar, e com o próprio mito de Iemanjá.
Reza  a lenda que somente graças a ela, as pessoas passaram a ser enterradas.
Pois certa vez cansada da devoção aos filhos e ao marido, se fingiu de morta no pé de uma grande arvore(Baubá) para poder se encontrar com um amante, e obteve sucesso em sua empreitada; mais foi descoberta. A partir daí então ordenou-se que os mortos fossem enterrados.
Criando assim um ciclo doido de :Sair do mar , levantar-se e enterrar-se na terra para a manutenção da ordem familiar. Salve nossa mãe Iemanjá!

                                            Pedro Guimarães

Novo Galã

Da cidade do interior onde nasceu traz lembranças.
Na sua maioria não tão doces assim.
Lembra das primeiras transmissões de televisão.
Assistidas na casa de vizinhas ou na praça da matriz.
A vida é sempre mais fausta em dor e sofrimento.
Com ele não haveria de ser diferente, pelo contrária foi tudo um pouco mais.
Lembra-se muito bem do excesso de sol e estrelas.
Um céu total e intransponível.
De sua primeira namorada que era branca e ninguém aceitou.
Tentou não se frustrar com esse primeiro desamor.
Como alternativa buscou mirar cada vez mais as estrelas que vivem no céu.
Entendeu sua verdadeira vocação.
Vou para São Paulo ser artista de televisão.
O passo seguinte foi concluir sua educação.
No supletivo superou expectativas e gerou inimigos.
Mas não seria contido pois tinha empenho e desejos.
As estrelas do céu eram o seu limite.
Tanto fez e desejou que esta conseguindo.
Aquilo que se deseja com muito afinco pode se tornar um pesadelo conseguir ou não te-lo.
Esteve em alguns capítulos de uma telenovela, virou celebridade em sua cidade natal.
Neste momento é reconhecido nas ruas por crianças e balconistas de botecos.
Seus antigos inimigos. Não bebe e mora em pensões.
Com seu primeiro cachê (salário de artista) realizou um grande sonho.
De corpo franzino deseja-se sexy e exuberante.
Comprou aquela sunga branca que desejou a vida toda.
A vida é sempre mais fausta em dor e sofrimento.
Teve seu sonho desmoronado  a sunga roubada por um michê ,companheiro de quarto na pensão onde mora.
A vida é sempre mais fausta em dor e sofrimento.
Mas lá continuam as estrelas e o limite é chegar o quanto mais próximo se puder delas.

Pedrão Guimarães