terça-feira, 14 de abril de 2015

Negra ruiva

        Parece minha tia Cercila, confesso que não conheci muito esta senhora ente querida. Mas Cercila aqui minha vizinha conheço bem são treze anos convivendo e a encontrando na calçada, mercado e nos elevadores. A conversa entre nós é sempre cheia de capsciosidade e um certo tom de libidinosidade sempre me perguntando sobre minha vida sexual-matrimonial e se saio pra sambar. Quando encontra com meus amigos músicos aí fica ainda mais afoita e curiosa.

        Sei que ela é natural do Grajaú (Rio de Janeiro) que mora em São Paulo há mais de 30 anos onde trabalhando como cozinheira e doméstica em casas finas conseguiu comprar seu apartamento aqui, reclama muito do quanto é vítima de inveja e olho gordo e que dessa forma tem que proteger-se  espiritualmente. Nas  sextas-feira vai num terreirinho bater tambor (saravá meu pai), no sábado vai louvar na igreja evangélica e termina essa peregrinação no começo  da semana: Domingo, onde vai a missa comungar com santos e o espirito santo.
           Com sua vaidade extrema mantém seu picumã (cabelo crespo)  bem alisado pra cima conexão com o cosmos. E com uma indefectível tinta vermelha que lhe dá assim um ar e status de madamezona branca. Volta e meia comenta como é abordada nas ruas por elogios aos seus cabelos.
             Dona de um olhar faminto de quem esta prestes a devorar o primeiro homem que cruzar a próxima esquina, é inquieta, falante, sagaz dona de uma seriedade antropfágica. Coisa que pode faze-la as vezes mal interpretada como louca, tarada coisa assim. Mas muito pelo contrário é até recatado e sofrega.
        Tem um pequeno desafeto com Almira uma ex moradora daqui professora de história engajada nas lutas sociais, aguerrida com um discurso mordaz ideologicamente patrulhador, pois essa certa vez cobrou posicionamento político mais condizente dela enquanto mulher negra.
         Há alguns dias atrás encontrei Cercila, ela falante e apressada começou uma prosa comigo sobre ervas para banhos e endereços de lojinhas de artigos religiosos. Disse estar bem por fora desses assuntos e aproveitei para dar uma alfinetada, começando assim esse dialogo:
Eu- Cadê Almira? Tem visto?
Cercila- Você não soube? Mudou-se.
Eu- É mesmo. Agora me lembro, alugou uma casinha lá no Butantã.
Cercila- Que chic ela não?
Eu- Casou-se com um negrão lá do movimento negro da USP.
Cercila (Num misto de estupefação, inveja e ódio) Sorte dela!
Eu nunca vi nem nunca pus um dedo num negrão.Só os homens brancos se interessam por mim.
           Nessa hora sai fora pois não iria gargalhar na cara dela, fiquei dias lembrando do ocorrido e rindo sozinho como um débil mental.
                           Pedrão Guimarães